02 outubro 2007

O “MEU” CINEMA – (Parte 6)


----------------------------------------------------------------------------------
Meu fascinio por cinema era grande, não somente pela arte em si, mas também pelo seu aspecto técnico. O Cine-Teatro São Luiz ficava mais ou menos no meio do trajeto de nossa casa para o Grupo Escolar Minas Gerais, onde eu estudava. Como as aulas começavam às sete da manhã, muitas vezes eu saía mais cedo com a esperança de passar pelo Cine São Luiz e encontrar pedacinhos de celulóides com cenas de filmes ali exibidos na véspera, geralmente seriados. Explica-se: para fazer as emendas, o operador, ou seja, o encarregado de projetar o filme e monitorar o projetor, quase sempre tinha de cortar um pedacinho da película, jogando os resíduos num latão, mais tarde colocado na calçada em frente ao cinema. Lixo limpo, a ser recolhido pela Limpeza Urbana. Aquilo que para o operador não valia nada para mim era uma jóia raríssima. Fiquei exultante quando encontrei um quadrinho (fotograma) do seriado O Fantasma exibido na noite anterior, e mais ainda quando me deparei com um frame (quadrinho) de um desenho colorido do Super-Homem exibido num domingo à tarde.

Certo dia, consegui realizar o “milagre” de projetar fotogramas na parede e numa folha branca de caderno. Luminosidade e ampliação, precárias, mas mesmo assim achei fantástico, pois com vontade e criatividade produzi algo que julgava impossível. A “máquina” que imaginei funcionava com uma “lente” para ampliação e projeção feita de uma lâmpada de vidro transparente, queimada. Fiz uma abertura na parte de cima do bocal feito de material semelhante a cerâmica, e por ali retirei os filamentos e os isolantes de vidro. Limpei a sua parte interna e ali coloquei água da torneira, bem cristalina. O problema da lente tinha sido resolvido...

Abri uma janelinha de 3 x 2cm no lado menor de uma caixa de sapatos. Enrosquei a lâmpada (já “lente”) pelo lado de dentro da caixa deixando a sua parte bojuda exatamente em frente à janelinha. Coloquei um fotograma cobrindo essa abertura, e com um pedaço de espelho fiz refletir os raios do sol sobre ele. A imagem formada sobre a “lente” era projetada e ampliada na parede ou num papel branco de uns 10x15cm. Na falta dos fotogramas, eu desenhava figuras com tinta comum azul sobre papel transparente retirado de maços de cigarros (se molhasse saía tudo)... Entrava-se a sonoplastia e estava pronto o “meu” cinema do tempo bem anterior ao das cavernas...

Um dia, meu irmão e eu resolvemos construir um projetor "de verdade", uma câmera, mas não conhecíamos os princípios básicos do cinema, nem qual fenômeno físico fazia com que as imagens se movimentassem na tela. Achávamos que o simples deslocamento de uma série de fotogramas em frente à janelinha do projetor seria suficiente para produzir o movimento das imagens projetadas, desde que estas, pensávamos, ficassem imobilizadas durante certa fração uniforme de tempo. Foi trabalhoso, mas fizemos à mão uma roda de madeira utilizando apenas serrinha e faca (naquele tempo não se compravam ferramentas com tanta facilidade como hoje. Era tudo Made in USA... A intermitência na passagem dos fotogramas poderia ser conseguida com hastes de arame de cobre, partindo do centro para as bordas da roda, que girava acionada por uma manivela, também de arame. Enfim, um trambolho.

Não deu certo a nossa tentativa, lógico, pois o mecanismo real era muito mais complexo do que a nossa imaginação de crianças nos fazia supor. Popularmente falando “tínhamos ouvido o galo cantar, mas não sabíamos onde”... Se tivéssemos ao nosso alcance livros, manuais e ferramentas apropriadas como serra circular, serra de copo, furadeira e outras talvez até alcançássemos algum êxito naquela incrível tentativa de fazer o tal “projetor” funcionar, ainda que muito primitivamente. (CONTINUA)

----------------------------------------------------------------------------------
Imagem capturada da internet
----------------------------------------------------------------------------------

10 Comments:

Anonymous Adelino said...

O "filme" já está acabando... Tem apenas mais o 7 o 8, sendo este o final...
Abraços e obrigado.

terça-feira, outubro 02, 2007  
Anonymous peri s.c. said...

Adelino
Essa de pegar fotogramas no lixo é rara, maravilhosa e imbatível.
E tentar montar um projetor, fantástico.

quarta-feira, outubro 03, 2007  
Blogger Denise Sollami said...

Muito legal!

quarta-feira, outubro 03, 2007  
Blogger valter ferraz said...

Adelino, nunca fui um aficcionado pelo cinema, mas também tive minha fase de querer projetar. Fizemos um com farol de carro, preparamos tudo, os fotogramas e tal, só esquecemos de um pequeno "detalhe": ligamos os faróis do Gálaxie azul Marinho do pai do Maurício, na tomada. O detalhe era a corrente. Alternada ao invés da contínua. Dá para imaginar o susto, né?
O Ameriquinho, nosso "técnico" saiu com a cara toda esfumaçada, e a sessão de cinema, logicamente cancelada.
Isso dá um post, aguarde!
Grande abraço

quarta-feira, outubro 03, 2007  
Blogger marilia said...

Oi amigo!
sabe, eu já fiz "um cineminha" com caixa de sabado, figurinhas e carretel grandão!
Quase deu certo também!
Hoje, só faço cenas..(rss)
bjos

quarta-feira, outubro 03, 2007  
Blogger marilia said...

Ola, uma boa tarde!!

quinta-feira, outubro 04, 2007  
Anonymous Adelino said...

Valter, a aventura de vocês causou muito riso por aqui.
Imagino a cara do Ameriquinho toda
esfumaçada... Lembra aquelis filmes do Bud Abbot e Lou Costello ou do Charles Chaplin...
Cometi erro semelhante: fui ligar uma eletrola (novinha). Como a tomada era diferente daquela da parede fiz uma "adaptação" com um único grampo de cabelo. Ele passava diretante de uma ponta da tomada para outra. Quando liguei,já viu... Estouro e fagulhas pra todos os lados.
Felizmente não estragou. Claro, que eu tinha uns sete anos de idade...
Um grande abraço

quinta-feira, outubro 04, 2007  
Anonymous Adelino said...

Marilia, tinha Manual de Instruções esse seu projetor?!...
Muito bem, hoje só faz cenas... Viu essa, Valter?
Beijos
Ah é. Boa tarde.
Marilia, sabia que Vasco da Gama e Atlético Mineiro vão fazer o melhor clássico da Segunda Divisão no ano que vem?

quinta-feira, outubro 04, 2007  
Anonymous Adelino said...

Peri, você sabe que outro dia, para espanto meu, eu vi uma entrevista de um cineasta (não me lembro quem) que fazia o mesmo?

Só que ele não procurava no latão de lixo, mas parece que alguém consegui para ele alguns fotogramas. Ainda bem que eu disse primeiro...

Mas, Peri, veja como é a vida. Depois de adulto, tive dois projetores: um 8mm e outro Super 8mm (dual). E mais: um 16mm sonoro (som ótico). Isso, no final da década de 60... Hoje são peças de museu. Qualquer hora rende um post...
Grande abraço.

quinta-feira, outubro 04, 2007  
Anonymous peri s.c. said...

Adelino
Meu tio tinha um 16mm, sábado à tarde íamos alugar filmes para a sessão noturna. Acho que eu prestava mais atenção no projetor, seus ruídos, suas roldanas, que nos filmes. Eu devia ter uns 8/9 anos de idade.

quinta-feira, outubro 04, 2007  

Postar um comentário

<< Home