02 novembro 2007

COPA DO MUNDO 2014 - Um antigo cenário

Foto APS, 29/05/1958. Estádio ainda vazio, bem antes do início de um jogo.
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O Brasil foi confirmado como sede da Copa do Mundo de 2014, e parece que a grande final será no Estádio do Maracanã. Hoje é um estádio moderno, bonito, acabado, bem diferente do “meu” Maracanã das décadas de 50/60. Vale a pena lembrar algumas diferenças curiosas:

PLACAR - Eram três, afixados logo abaixo das grades de proteção das arquibancadas: um, do lado oposto às cabines de rádio, e dois, atrás das balizas. Chapas de metal medindo cerca de 1x1m, pintadas com algarismos de 0 a 10, eram retiradas e encaixadas num compartimento próprio assim que os gols iam acontecendo. Um pesado trabalho executado por jovens cujo critério de escolha naturalmente não dispensava o “quesito” “preparo físico”... Surgiu daí a “palavra de ordem” criada por um famoso narrador esportivo: “Atenção, garoto do placar... Coloque...”. O “garoto” por vezes se enganava e colocava a placa invertida, o que era motivo de muitas vaias da torcida “prejudicada”...

ESCALAÇÕES, RENDA E PÚBLICO - 140, 150 mil espectadores ouviam em silêncio os alto-falantes do estádio anunciarem: “A ADEG informa: escalação dos times para esta tarde: Clube de Regatas Vasco da Gama... Carlos Alberto, Paulinho e Bellini; Écio, Orlando e Coronel. Sabará, Livinho, Vavá, Valter e Pinga...” (longa pausa entre um nome e outro para criar suspense...) A torcida se manifestava ruidosamente, mais ainda se o seu time fosse jogar completo. Outra pausa e... “Botafogo de Futebol e Regatas: Adalberto, Tomé e Nilton Santos; Servílio, Beto e Pampolini; Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Edson e Quarentinha...” Era a vez dos alvinegros... Os alto-falantes divulgavam também a “marcha do placar” nos jogos da rodada nos outros estádios. Renda e público - informações preciosas -, vinham lá pela altura dos 35 minutos do segundo tempo. Tinha gente que apostava nas aproximações de acerto.

MÚSICA AMBIENTE - Antes do início e no intervalo tocavam músicas em discos de vinil, 78 rpm, “quebráveis”, de Anísio Silva, Alcides Gerardi, Orlando Dias, Lana Bittencourt, Teresa Brewer, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Celly Campello, Rita Pavone... Jogo encerrado, “rodavam” o hino do time vencedor... O solene minuto de silêncio já era respeitado, desde que fosse um minuto de 25 segundos... Nada mudou aí.

PROPAGANDA - Nenhuma placa fixa dentro do gramado. Ao pé das arquibancadas, junto às grades de proteção fazendo o contorno interno do Maracanã liam-se: Tonelux, Cássio Muniz, Ducal, Casa José Silva, Exposição, Mesbla, Sears, Maltzbier, Crush, Grapette, Kibon, Coca-Cola... Uma exceção: terminado o primeiro tempo, homens entravam no gramado pelas laterais em trajes comuns - mocassins pretos, retorcidos, solas gastas, camisa branca pra fora das calças etc. Nos ombros, a exemplo dos ajudantes de caçadores que levavam as caças abatidas, traziam um varal com “reclames” de consertadores de colarinho, de óculos, de canetas, de galochas; serviços especiais de cartomantes, “compra-se tudo”, "dá-se aterro", "exterminamos formigas, tudo"...

ASSISTÊNCIA MÉDICA - Jogador machucado, exceto o goleiro, não era substituído. "Caía" para as pontas fazendo número. No caso de contusões o “departamento médico” entrava em campo (“departamento médico” era um roliço senhor de camisa esportiva de malha - pra fora das calças, e com uma maleta de madeira nas mãos)... Tratava-se do massagista, mas se o caso fosse grave aí então entrava o médico, de paletó e gravata. E os repórteres de campo entravam juntos... Usando sapatos, não eram raros os escorregões, rolagens e deslizes pelo chão sob intensa gargalhada do público... Lembravam filmes de Charles Chaplin. Chamados de “pombos-correios”, alguns massagistas mais “espertos” traziam instruções do técnico, que ficava na boca do túnel ao lado do goleiro, do médico, do massagista e de algum dirigente. E tinha os maqueiros... Os trajes eram os mesmos, e a maca, era aquela comum, uma lona presa nos lados em dois suportes de metal ou madeira. Imagine-se dois maqueiros franzinos - muitas vezes de chinelos de borracha - carregando um “atleta” de quase 90 quilos? Vida dura por um "bico" de alguns minguados cruzeiros...

LANCHES - Bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarros eram vendidos nos bares localizados na parte mais alta da arquibancada, e nem por isso havia confusão e briga. Qualquer coisa diferente os Cosme e Damião entravam em ação apaziguando os ânimos. Vendedores ambulantes vendiam um cachorro-quente (nem sempre quente) anunciado em altos brados: Vai um “salsicheis”... (numa palavra só anunciavam produto e preço: salsicha + seis cruzeiros = salsicheis) E um ingresso nas arquibancadas custava apenas dezessete...;

A BOLA E BALIZAS - De couro marrom, que se confundia com a lama quando em dias de chuva, eis a bola..Quantas vezes o jogo não era interrompido porque a “pelota” caía no “fosso”, uma espécie de tanque que circundava todo o gramado, com uma altura de mais de dois metros, cheio de água misturada com copos, garrafas, jornais etc. A bola era “resgatada” por um menino, usando um “puçá” daqueles usados em piscina. “Pescada” a bola, o jogo reiniciava...
De madeira quadrada (10x10cm), as balizas representavam perigo constante para os jogadores. Hoje são cilíndricas. Tecidas com barbante forte, as redes dos gols justificavam a expressão “bola no barbante” que era sinônima de “gol marcado”.

TORCIDAS - Torcida de um time é uma só, pensava a maioria absoluta dos torcedores. Por que divisões? As organizadas foram fruto do incentivo de alguns narradores de futebol. As de maior popularidade, como Vasco da Gama e Flamengo tinham e têm até hoje um lugar cativo. Ao Vasco, o lado direito das cabines, e ao Flamengo, o esquerdo. Estádio lotado, torcedores rivais se misturavam no anel oposto às tribunas, sem atritos, provocações ou confusões. Fogos de estampido e de artifício liberados, o Botafogo invariavelmente entrava em campo sob intenso foguetório.

LOCUTORES DE CAMPO - Locutores de campo e os fotógrafos postavam-se atrás das balizas portando seus “modernos” e enormes “walkie-talkies”. Quase entravam em campo na cobrança, de escanteios. Fios de microfones e de rádios, se vistos de cima, lembravam um cipoeiro. Um emaranhado só. Nos jogos noturnos, o espocar dos flashes das câmeras fotográficas cegavam goleiro, jogadores e torcedores... As fotos dos times “tiradas”no meio do campo saíam publicadas no dia seguinte, com as respectivas escalações, por isso os jogadores eram reconhecidos em qualquer lugar. Problemas com direito de imagem, de propaganda etc impedem que essas fotos sejam divulgadas hoje, ainda que clicadas.

Enfim, era um Maracanã bem mais modesto, simples, um gramado longe de ser o que é hoje, placares eletrônicos, telões, museus, excelente serviço de som, salas de musculação, de treinamento, de entrevistas, ambulância à beira do gramado, carrinhos-automóveis para socorro, cadeiras numeradas, ingressos magnetizados, geral com cadeiras, gramado perfeito, calçada da fama etc. etc. Tudo muito bonito, moderno, limpo, o que não nos impede de ter saudades daquele estádio inacabado, porém mais humano, romântico, pacífico, acolhedor, dentro e fora dele. E não falo apenas do nosso querido Maracanã, mas de quase todos os estádios do Brasil. Que seja bem-vinda para todo o Brasil a Taça do Mundo de 2014.
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Nota: clique sobre a foto. Vale a pena vê-la mais detalhada (Aps)
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9 Comments:

Blogger Lord Broken Pottery said...

Adelino,
Volto como sempre continuarei voltando, para ter dupla alegria: assunto e maneira de abordá-lo. Fascinante a matéria, digna de ser publicada em jornais. Você deveria enviar para algum. Embora seja um apaixonado por futebol, desconhecia muita coisa que você abordou. Excelente viagem pelo passado!
Grande abraço, amigo

sexta-feira, novembro 02, 2007  
Anonymous peri s.c. said...

Adelino,
Beleza de texto.Parabéns .

Fui uma única vez a um estádio de futebol, e bem aí no definitivo Maracanã, num Flamengo 2 x Botafogo 0. Tinha uns 9/10 anos de idade e lá fomos nós, saindo de Santa Teresa, para enfrentar o mistério de um jogo de futebol. Saí assustado, sentamos nas numeradas bem embaixo da torcida flamenguista ( pensando bem, acho que toda arquibancada, e as numeradas, eram Flamengo ) na hora dos gols as arquibancadas tremiam e pareciam que iam desabar.
Na saída mais uma surpesa, o Chevrolet 53 de meu tio estava com dois pneus murchos : obra do Fontenelle .... ah, ah, ah.

Quanto à Copa aqui no Brasil, uma hora teria que acontecer, mas começou mal, muito mal. Estranho trenzinho da alegria política indo à Suiça, para " torcer' pelo que já estava definido há uns 10 anos. As misteriosas ausências do maior jogador de todos os tempos, Pelé e de tantos outros que lá deviam estar, Rivelino, Tostão, Gerson, Carlos Alberto, Zico, Falcão, Sócrates, Careca, os Ronaldos, Kaká. Que país pode se dar ao luxo de colocar tantos atletas da história do futebol no mesmo palco? E levam Romário ...
No vídeo apresentado na cerimônia parece que não foi mostrado nenhum gol de Pelé. Assunto a ser aprofundado aos poucos

Abraço

sexta-feira, novembro 02, 2007  
Anonymous strixflamea@bol.com.br said...

Tô achando que tu é (talvez) um poquinho meis véio quiêu.
Dû jeitinho que tu falou, eu também vi.
Só, parece, tu esqueceu dá "homenagem" feita às mulheres.
Depois avacalhou. Parece que, agora, estão valorizando a presença feminina no Maraca, já que o "futebol" e as torcidas deixam muito a desejar.
Strix.

sexta-feira, novembro 02, 2007  
Anonymous Adelino said...

Lord, grato pelos elogios. O texto original era enorme, muito detalhado, por isso cortei muita coisa. Mas tudo é a pura verdade. Era assim mesmo.
Muito obrigado mais uma vez.
Grande abraço.

sábado, novembro 03, 2007  
Anonymous Adelino said...

Peri, o Maracanã tem um encanto próprio. Sinceramente, não existe espetáculo mais lindo do que a manifestação da torcida comemorando um gol. Sou Vasco da Gama, o que nunca me impediu de aplaudir jogadas sensacionais de times adversários. Lembro-me muito bem daquele Botafogo 6x2 Fluminense, em que Paulo Valentim fez 5 gols, sendo um de uma semi-bicicleta da entrada da área do gol defendido pelo grande Carlos Castilho...
E de um gol de Vavá contra o Bangu, quando uma bola chutada por Sabará veio rolando na lama (chovia muito) quase paralela à linha de fundo. A bola passou pelo goleiro, e quando Vavá percebeu que não chegaria a tempo de jogá-la para dentro do gol, ele simplesmente se jogou na lama deslizando para empurrar o "balão de couro" bem junto à trave. Era o gol da vitória nos últimos segundos de jogo. E o Bangu tinha um timaço. E tantos outros.
Ia me esquecendo: a minha CNH era assinada pelo Coronel Américo Fontenelle... Lamentei, mas não muito, quando fiz a renovação e me deram outra assinada pelo não menos competente Comandante Celso Franco.
Peri, vou parando se não já viu. Este papo vai longe...
Grande abraço.

sábado, novembro 03, 2007  
Anonymous Adelino said...

Strix, dizem que depois de certa idade, o certo é fazer a contagem de idade no sentido anti-horário... Não sei se empatamos em idade, acho que não. Pelo que escrevo, nota-se que vc é mais jovem... Mas o que interessa é que podermos rememorar coisas tão legais porque as vivemos intensamente, com emoção, e observação. Não somos meros espectadores.
O caso que você falou de mulheres é verdade. Hoje, com algumas campanhas feitas pelos órgãos de comunicação as famílias estão de volta ao futebol.
Grande abraço, Strix, e obrigado por confirmar o meu "depoimento". Valeu.

sábado, novembro 03, 2007  
Blogger marilia said...

eu adoro passar aqui, suas reportagens são lembranças históricas e vc sabe o quanto eu gosto de futebol, e saber detalhes é sensacional.
A copa aqui , só espero estar viva para não perder um jogo no mineirão...rssssss
Alias, dia 8 vou ao CAM assistir um documentário historico feito pela BBC de Londres sobre Meu Galo, e com direito a entrevistar o Reinaldo depois...rssss
bjos amigo, e otimo domingo!

domingo, novembro 04, 2007  
Anonymous Adelino said...

Marilia, o CAM tem uma história muito bonita. Houve um tempo em que ao término dos campeonatos regionais os times saíam para excursões ao Exterior, principalmente para a Europa. Jogavam seguidamente, no mínimo, umas dez partidas. Como era época do inverno, jogavam na neve. Lembro-me que o Atlético ficou invicto por um bom tempo no Exterior. Na ocasião eu lia o Globo Esportivo, um tablóide semanal muito bom. E me deliciava com as fotos dos alvi-negros jogando num gramado totalmente branco.
Quando foi isso? Assista ao filme da BBC de Londres aí dia 8. Talvez falem dessas proezas do Galo...
Beijos, e bom jogo.
PS 1 - Mineiro hoje tem de torcer para o Cruzeiro...
PS 2 - O Reinaldo que você vai entrevistar é aquele da Copa da Argentina? Grande centro-avante.
Se não me engano o CAM foi seu único clube, não?
Bjs

domingo, novembro 04, 2007  
Anonymous Adelino said...

MARILIA, eu de novo.
Você disse que adora futebol, o que nos leva a deduzir que você entende tudo do "velho e violento esporte bretão"...
Uma vez eu estava no Maracanã em companhia de minha irmã, meu irmão e sua esposa, minha cunhada. Jogavam Vasco x Flamengo. De repente,lá pelos 30 minutos de jogo do primeiro tempo ela me perguntou:
- Adelino, quanto está o jogo?
- Zero a zero - respondi.
- Como zero a zero se já aconteceram tantos gols? - fiquei meio intrigado, mas só depois compreendi que ela interpretava como gol todas as bolas chutadas a gol, ainda que fossem fora...

Você também é assim, Marilia, aposto... Chutou na arquibancada é gol do Galo... Se entrar no gol do CAM foi roubado.
Bjs

domingo, novembro 04, 2007  

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