27 abril 2007

ALÉM DO UNIVERSO

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Um artigo sobre novas descobertas científicas no campo da Astronomia trouxe-me à lembrança a figura do nosso cunhado, excelente pessoa, marido de minha irmã. Astrônomo amador, inteligente, estudava e lia com enorme interesse livros e artigos especializados no assunto publicados em italiano, francês, castelhano e inglês.Se lhe fosse feita uma pergunta sobre qualquer assunto a sua resposta era objetiva, mas uma ida aos livros tornava-se obrigatória, pois não se contentava em transmitir apenas o que sabia. Sua paixão pela Astronomia levou-o a importar um bom telescópio dos USA, no qual observávamos com excelente nitidez Saturno e seus anéis, a “estrela” Vênus, e Marte, com seus canais misteriosos; a Lua parecia uma laranja descascada, ali, ao alcance de nossas mãos. Nas noites frias de inverno utilizava o facho de uma possante lanterna para nos mostrar no céu estrelado os “desenhos” das principais constelações, seus nomes e lendas.
É dispensável dizer que ele foi um dos ídolos de nossa infância. Seu sonho era visitar o Observatório Nacional, no bairro imperial de São Cristóvão. Fez o pedido por escrito, cumprindo as formalidades exigidas. E entrou na fila de espera. Decorrido algum tempo recebeu uma carta confirmando mês, dia e hora em que o seu sonho finalmente se tornaria realidade. Alegre, exibia a correspondência para amigos e parentes. E sonhava com a aproximação da grande noite do dia marcado. Este finalmente chegou, mas com a cidade do Rio de Janeiro coberta de nuvens, céu escuro, e com aquela chuvinha teimosa que fica por dois, três dias no mesmo lugar.
A visita, claro, cancelada. Teria de fazer novo pedido. Até que podia usar uma certa influência, pois conhecia funcionários do Observatório, mas a sua elegância e cavalheirismo fazia com que recusasse qualquer privilégio. O tempo passou e acho que acabou desistindo, e ele nunca foi visto lamentando tão desagradável coincidência, pelo contrário, sempre que o assunto era pertinente ele contava aquela história com muito bom humor.

Trinta anos se passaram. Um dia nos avisaram que ele tivera um mal repentino. Não estava nada bem. Ao anoitecer, torcíamos e orávamos em silêncio pela sua recuperação. Olhei distraidamente para o espaço de fora da janela. Vi uma pequenina estrela muito brilhante se deslocando lentamente para a frente e para o alto, com uma luminosidade tão grande que chamei as pessoas de casa para observarem comigo. Ninguém tínha idéia do que podia ser. E a “estrela” desapareceu entre as nuvens claras que ainda visíveis cobriam as montanhas próximas ao Grajaú, bairro onde residia com a família. Neste instante o telefone tocou: avisavam que infelizmente o nosso cunhado, com quem convivêramos desde pequeninos, tinha deixado este mundo, ou melhor, este planeta. Para amenizar a minha tristeza achei melhor pensar que ele tinha partido feliz ao lado daquela estrela brilhante e misteriosa que tínhamos visto momentos antes. E quem afirmaria que não?
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(Imagem: internet)
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7 Comments:

Blogger O Meu Jeito de Ser said...

Puxa Adelino, que história bonita e triste também.
É estranho, mas as vezes nos deparamos com situações como essa, de pessoas que têm um sonho tão bonito, nem tão difícil de ser concretizado, mas acabam por não realizar o sonho.
Explicações? Nem adianta procurar.
Tenho uma amiga virtual do blog que é astrônoma, ela vive fora do país, mas a família dela mora aqui no litoral pertinho de mim. Temos at´a promessa de nos encontrarmos agora no mes de junho, quando ela vem visitar os pais.
Depois se você quiser, te dou o link dela.
Um abraço.
Que bom que está de volta.

sexta-feira, abril 27, 2007  
Anonymous Adelino said...

Então, Anna, e esta história é absolutamente verdadeira. O tal telescópio acabou ficando comigo, mas hoje já existem coisa bem mais modernas.
Eu não sou nem "astrônomo amador", conheço muito pouco do assunto, a não ser o trivial, mas sou profundo admirador dos cientistas e pesquisadores do firmamento.
É uma pena que em nosso país "celebridades" do BBB ou das novelas sejam mais divulgados do que cientistas brasileiros como o grande astrônomo Ronaldo Rogério Mourão, link abaixo.
http://www.clubedeastronomia.com.br/ronaldo.php

Aguardo o link de sua amiga astrônoma.
Grande abraço, Anna

sábado, abril 28, 2007  
Anonymous Adelino said...

Anna, não aprendi ainda a colocar links. Minhas desculpas.

sábado, abril 28, 2007  
Blogger valter ferraz said...

Adelino, a estrela que vc viu rasgando o céu e desaparecendo atrás das nuvens era a alama de teu cunhado/amigo. Pessoas com sensibilidade aguçada sempre atraem bons acontecimentos e ficam guardadas em nossa memória como fatos bons que nos ocorreram.
Eu conhecí um astrônomo amador assim como vc relata. Era irmão do meu pai adotivo. O tio zé era famoso na família, pintor nas horas vagas, um sonhador. Ir à casa dele era uma festa. Lembro-me de uma ou duas vezes só que fui(meu pai era meio desligado da família), mas foi muito marcante. Todos na sala conversando assuntos de família e ele me pegou pela mão(devia ter meus oito anos) e me levou num quartinho(na verdade um sótão) e me mostrou o "telescópio"). Coisa de louco.
Este teu blog ainda me mata do coração.
Abraço forte

sábado, abril 28, 2007  
Anonymous Adelino said...

Pois é, Valter, eu não acredito em certas coisas, mas às vezes fica difícil explicar.
A história sua passada com o seu tio me emocionou muito também.

A minha intenção, quando conto essas passagens, não é a de emocionar, mas acaba acontecendo. Por vezes até evito postar casos como este, e para compensar, mando uma post de uma estrela de cinema das antigas (quase sempre) bem bonita que nem aquele da Lizabeth Scott.
Quanto ao meu blog, Valter, é uma honra quando vejo você e Anna inaugurando os comentários.
Grande abraço pra vocês, e bom final de semana (com sol).

sábado, abril 28, 2007  
OpenID universodesconexo said...

Que historia mais emocionante Adelino. Enquanto lia pensava em convida-lo a visitar o observatorio comigo pois o levaria certamente. Quando cheguei no final me deu uma tristeza enorme em saber que isso nao sera mais possivel.

Eu admiro muito os astronomos amadores pois sao eles que fazem o trabalho que nos profissionais nos negamos a fazer, que eh o da divulgacao da astronomia. Mas essa eh uma outra historia amigo.

Diziam os antigos que quando morremos viramos constelacao. Se isso for verdade seu tio tao especial e amante da astronomia certamente virou uma bem brilhante la no ceu !

Um abraco
Lys

sexta-feira, março 14, 2008  
Anonymous Adelino said...

Lys, obrigado pelo seu comentário sempre inteligente, oportuno, humano, sensível.
Beijos

sábado, abril 19, 2008  

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