19 janeiro 2007

DEFININDO SAUDADE

(Natalie Wood - imagem da Internet)

Esta lindíssima crônica, cuja autoria foi atribuída - por equívoco - a Miguel Falabella é, na verdade, da grande escritora gaúcha Martha Medeiros. Está no livro de crônicas Trem-Bala, de sua autoria.
(Adelino P. Silva)
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A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
(Martha Medeiros)

25 Comments:

Blogger O Meu Jeito de Ser said...

Ou a ausência do saber.
Muito bonito o texto Adelino.
Agora ví alí nos post anterior, voce dizendo ao Valter que seu ibope está em baixa,e que está acabando seus trinta dias.
Eu te digo,olha a impaciência. Voce começou agora, ainda visita pouco as pessoas,não sei,se está conseguindo comentar nos blogues que visita, aos poucos tudo isso se corrige, e os amigos que fazemos aqui, sempre retornam para nos ver.
Um abraço

sábado, janeiro 20, 2007  
Anonymous Ery Roberto said...

Adelino, na última edição da Revista Língua Portuguesa (Ed. Segmento)tem uma bela reportagem sobre a força da palavra "saudade" na língua portuguesa, com uma interessante comparação sobre como o sentido é expressado em outros idiomas. Nada se compara. É um dos vocábulos mais densos de todas as línguas. // Quanto ao seu pretenso "prazo de validade" e o tal do ibope em baixa, comentado pela Ana, não deve ser uma preocupação meu amigo. No meu blog anterior alcancei uma média de 200 visitas diárias. Resolvi mudar, reformulei minha proposta, passei a escrever diferente (com um pouco mais de maturidade, penso) e o blog atual nunca teve média superior a 40 visitas. Já cheguei a pensar que escrevo prá mim, apenas. Desanima? Sim, desanima. Não posso cometer hipocrisias. Mas a vontade de escrever é muito maior do que a preocupação com a audiência. Depois, há certos períodos onde compreensivelmente a freqüência é bem menor. É o caso de agora - período de férias, muita gente fora de casa, etc, etc. E tem outro dado interessante: muitos leitores ainda se sentem inibidos de escrever um comentário. Eu prefiriria que fosse diferente e ao menos dissessem, "este texto ficou uma droga", ou "cara, tu não manja nada deste tema", ou "você tem sua razão, mas não gostei porque cozido, assado...". Mas, o que importa é poder publicar. Se além de mim mais um ler, já seremos o dobro. Assim sendo, acredito que você está convencido a prorrogar o prazo de validade. Um abraço.

sábado, janeiro 20, 2007  
Anonymous Adelino said...

Olá,ANNA, não seria justo, principalmente pelo apoio que vocês estão dando. Pode deixar comigo. Aos poucos a gente vai aperfeiçoando...
Um abraço e bom fim de semana para vocês.
Adelino

sábado, janeiro 20, 2007  
Anonymous Adelino said...

ERY, vocés são pessoas especiais. Aparecem sempre no momento exato para dar aquele apoio. Muito obrigado. Depois que escrevi aquilo para o Valter sobre Ibope, eu estava caminhando, e pensei assim: se dois ou três lerem já está ótimo. Pelo menos fica registrado. Vamos,pois, à luta.
Sobre saudade, o então Embaixador do Brasil no Paraguai, e futuro imortal da ABL, professor (para nós) Mário Palmério, autor de Vila dos Confins e Chapadão dos Bugres, contou que estava num jantar na Embaixada do Brasil quando lhe pediram uma definição para a palavra saudade. Ele respondeu que saudade não podia ser definida apenas por palavras, mas por canções. Naquela noite, contou ele, compôs letra e música de uma guarânia que chamou Soledad... Nem sei se foi lançada, mas eu tive o privilégio de ver o "rascunho" numa velha fita cassete (ainda).
Um grande abraço e bom final de semana.
Adelino
PS - Ery, já notou como os meus comentários estão maiores dos que as postagens?

sábado, janeiro 20, 2007  
Anonymous Adelino said...

Ery, uma correção no nome do livro de MP: Chapadão do Bugre, e não "...dos Brugres".
Adelino

sábado, janeiro 20, 2007  
Anonymous Helô said...

A crônica em si já nos deixa com saudades. É comovente e sei que, assim como eu, você é fã da Martha. Além do belo texto, a ilustração ficou perfeita, Adelino. Saudades de West Side Story, com a magnífica trilha sonora de Enio Morricone.
Beijos e boa semana.

domingo, janeiro 21, 2007  
Anonymous Helô said...

Ih, depois que escrevi constatei que troquei as bolas, ou embolei as trocas :)) A trilha de Enio Morricone é do filme "Era uma vez no Oeste" (com a estonteante Claudia Cardinale) e não de "Amor, sublime amor".

domingo, janeiro 21, 2007  
Blogger Deize said...

.
Adelino,
Ando a mil (imitando a Helô) e só agora soube do blog. Li tudinho e fiquei encantada !!!

Vc sabe que eu lembro bem da Torre Mesbla, do restaurante e do relógio mas, não lembro dessa coisa das bandeirolas com a previsão do tempo.... :o(((

Ficarei torcendo para que mude de idéia e o blog tenha muito mais tempo que os minguados 30 dias iniciais. Merecemos desfrutar mais de seus escritos !

Super abraço !

domingo, janeiro 21, 2007  
Blogger valter ferraz said...

E aí.mais trinta dias?

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

HELÔ, de Leonard Bernstein, não?
A Natalie Wood, que sempre foi linda, está muito bonita no filme. A única versão que conheço de West Side Story é essa do cinema (MGM). Outra, estraga. Tenho o DVD duplo, presente.
Sobre o tema do post já comentamos, não foi?
Beijos, e boa semana também. Obrigado.

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

HELÔ, é pra "embolar as trocas" mesmo. O filme é bom, e a Claudia Cardinale era outra que abusava do direito de ser bonita.
Obrigado.

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

DEIZE, feliz que tenha gostado, espero que volte sempre. Ainda não coloquei todos os blogs favoritos alí ao lado por um motivo muito simples: não sei fazer isto, mas a Helô prometeu que vai me ensinar.

Sobre a "previsão do tempo", Deize, eu também só soube disso em 1974, por mero acaso. Do prédio onde eu trabalhava tínhamos uma visão distante, mas boa da Mesbla. Uma tarde, um senhor, colega meu bem mais velho, conversava comigo na minha sala, e de repente disse: - "Vem tempo ruim por aí..." Como sabe?, perguntei. E ele me mostrou as banderolas na Torre Mesbla. E ainda tirou da carteira e me deu o exemplar que tenho até hoje (imagem do post).
Vamos continuar com o blog, sim, se Deus quiser.
Obrigado, DEIZE, e super abraço também.
Adelino
PS - Apenas como curiosidade: há uns dois anos o Globo publicou (não sei se em Cartas dos leitores, eu não vi, soube por outas pessoas)uma sugestão nossa para que quando da restauração do prédio, preservassem o sistema de bandeirolas, ainda que apenas por tradição.
aps

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

Grande VALTER...
O GUGALA disse, no primeiro dia, que não existe ex-blogueiro... Ele está certo, se é o que entendi.
Diante de tanto apoio, quem resistir há de?
Um abraço, Valter.
Adelino

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

ERREI: "bndeirolas" na resposta a DEIZE.
aps

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

DE NOVO: "bandeirolas", DEIZE. Custou, mas acertei...

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Blogger valter ferraz said...

Adelino, se precisar de ajuda nos links, grita que te ajudo. Meus conhecimentos disso aqui não são lá grande coisa mas pelo ao menos os links consigo fazer(nada que meia dúzia de palavrões impublicáveis não resolva).
Abração

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Anonymous Adelino said...

Valter, você me deu três e-mails para os quais escrevi, mas não tive resposta. Acho que você estava naquelas férias prolongadas e deletou tudo...
Abraços

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Blogger valter ferraz said...

Anota aí, Adelino;
valter.ferraz@hotmail.com ou
valter-ferraz@ig.com.br
OK?

segunda-feira, janeiro 22, 2007  
Blogger Luttchi said...

Engraçado como a palavra saudade pode se traduzir de maneira tão profunda...
A saudade nada mais é doq a lembrança, mas não uma lembrança qualquer... uma lembrança forte, viva, doce, terna...
Há pessoas q definem a saudade como algo q nos machuca, q nos faz sofrer, q nos arranca lágrimas de dor... mas pq naum definir a saudade como algo q nos faz ("fez") viver... pois não sentimos saudades doq não gostamos, não sentimos saudades doq não amamos, não sentimos saudades doq nos causou alguma dor ou desprazer...
Somente sentimos saudades doq amamos, doq nos fez sorrir, viver, cantar... so sentimos saudades doq amamos, dos chamados "presentes" q Nosso Criador coloca em nosso caminho...
Portanto, deixo aqui minha opinião, dizem que a saudade dói, meu caro Adelino... mas dói muito mais, ter um peito sem saudades!!!

Seu blog está maravilhoso... reforço os pedidos das pessoas, que assim como eu, admiram sua pessoa e sua forma clara e singela de escrever... Seu Blog tem q durar, pelo tempo q durar o ar em seus pulmões....!!!
Um grande abraço deste amigo e admirador desta pessoa maravilhosa que é vc...
Luttchi

terça-feira, janeiro 23, 2007  
Anonymous Adelino said...

Está mais do que anotado, VALTER. Seus e-mail estão devidamente registrados. mas vê se encontra um tempinho para abrir a sua CP... rs
Um abraço

terça-feira, janeiro 23, 2007  
Anonymous Adelino said...

LUTCCHI, foi uma agradável surpresa a sua presença aqui prestigiando este blogueiro novato. Surpresa nenhuma foi nos depararmos com um comentário/texto tão cheio de sensibilidade, verdade e bom gosto, pois já o visitamos algumas vezes no "Recanto de um Poeta".
Agradeço com emoção o que eu considero uma honrosa homenagem.
Volte sempre.
Um abraço

terça-feira, janeiro 23, 2007  
Blogger Denise Sollami said...

Adoro Martha Medeiros, sobretudo como poeta. É uma poeta e tanto, muito ousada, muito inspirada.
E Nathalie Wood é linda, não? Sempre a achei lindíssima, com aqueles olhos grandes e expressivos. Morreu cedo e de uma maneira obscura.

segunda-feira, janeiro 29, 2007  
Anonymous Adelino said...

DENISE, a Martha Medeiros me parece isso que você disse: ousada, muito inspirada. Leio-a sempre aos domingos.
A sempre linda Natalie Wood, salvo engano, descendia de russos, tinha o tipo de beleza meio latino. Dizem que a paixão dela era James Dean, mas aí entram as interferências das produtoras etc e tal.
Abraços

terça-feira, janeiro 30, 2007  
Anonymous Anônimo said...

Por que nao:)

sexta-feira, novembro 20, 2009  
Blogger Norival R. Duarte said...

Realmente, Adelino, nada a discutir sobre o texto da Martha Medeiros. Ela acerta em cheio sobre tudo o que escreve.

E como escreve bem!

E, lendo os comentários anteriores de nossos amigos, foi muito bom que você continuasse e desse uma banana pro IBOPE.

Um bom restinho de domingo e uma boa semana pra você e sua família.

domingo, janeiro 30, 2011  

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