GINÁSTICA PELO RÁDIO

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Gosto de contar histórias de minha infância, talvez por ter sido um menino muito observador das coisas que aconteciam no mundo, especialmente no meu mundo. Com espírito crítico, criativo e irreverente próprio das crianças, eu tirava minhas próprias conclusões do que via e ouvia, conclusões nem sempre as mais certas, nunca época em que palavra de pais e professores era dogma.
Quantas vezes ao ligar o rádio pela manhã antes de ir pra escola, eu ria sozinho ouvindo um professor que dava aulas de Educação Física pelo rádio tendo como playback o martelar das teclas de um piano...
- Um dois, um dois, estiquem os braços, respirem fundo... expirando... Isto, ânimo, mais uma vez, vamos lá!!! Descansem um pouco...” - ordenava ele.
Relaxar era um verbo que não se usava ainda; chegou mais tarde “copiado” do relax americano, assim como o stress. Os sintomas do stress existiam, óbvio, mas sem um nome tão pomposo... Então, eu ria na certeza de que ninguém faria ginástica pelo rádio. Pelo menos para mim, meus colegas e amigos, fazer ginástica só na escola, e assim mesmo obrigados pela presença física do professor ou da professora... Valia nota mensal...
Como eu estava errado! O professor que ensinava ginástica pelo rádio era o idealista e abnegado professor Oswaldo Diniz Magalhães. Alguém já ouviu falar dele? Poucas pessoas, creio. Então vamos resumir a história, caso contrário ninguém lerá este post. Oswaldo Diniz era um professor de educação física, tijucano, que, através do rádio, divulgou a ginástica com grande receptividade pelo público. Nasceu em 1904, e morava na rua Campos Salles, em frente ao então Estádio do América FC. Ingressou na ACM (Associação Cristã de Moços), onde trabalhava como monitor de educação física, enquanto cursava a disciplina especializada no Instituto Técnico de nível universitário.
A popularização do rádio em 1932, e a “carência de recursos técnicos e pedagógicos para difusão educativa” levaram o Professor Diniz a criar o primeiro - talvez no mundo - programa de “radioginasta”, a “Hora da Ginástica”. Graças ao imenso público conquistado, manteve-se no ar durante incríveis 51 anos e três meses (*). Às 6 horas da manhã ele acordava os seus alunos com um “Bom dia, radioginastas”, uma voz suave, calma, incentivadora, otimista. Ele não ministrava apenas aulas de ginástica, mas também lições de cidadania e boa conduta aos seus fiéis ouvintes. Diante de tanto sucesso surgiu a Associação dos Rádios Ginastas, incentivando a prática de exercícios e cuidados com a saúde para vários segmentos da população.
Oswaldo dizia: “A ginástica beneficia a grande massa humana. É a ‘base’ que torna possível o ponto mais alto onde se unem a saúde física e moral”. Passando hoje pela Praça Saenz Peña tive o prazer de admirar e de fotografar o monumento (**) a ele dedicado por um grupo de ex-alunos seus, radioginastas.
Oswaldo Diniz Magalhães escreveu diversos livros, bem como colaborou com artigos importantes em jornais, revistas especializadas e programas de rádio. Morreu em 23 de janeiro de 1998, aos 93 anos de idade.
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(*)Sérgio Carvalho, autor de um livro sobre Oswaldo Diniz, tenta atualmente incluir o feito no Guiness Book, o livro dos recordes.
(**) Escultura de Matheus Fernandes
Foto: Adelino P. Silva
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45 Comments:
Adelino,
Fantástico! Nunca imaginei que pudesse existir um programa de rádio ginástica. Essas histórias, ao viajarem do passado para o presente, tornam-se fatos emocionantes, interessantíssimos. Gostei!
Grande abraço
Adelino, você é uma dádiva na blogosfera ao contar essas histórias tão maravilhosas. Desconhecia totalmente o assunto. Beijocas
Adelino, ginástica pelo rádio? Puxa,isso dá uma canseira...
Bom, passando para deixar um abraço e falar que o lançamento foi um sucesso absoluto e os convidados fizeram toda a diferença. E voce esteve presente em pensamento, eu sei.
Forte abraço
Adelino, seu jeito de contar as coisas é que as fazem emocionantes.
No seu post vemos a importância que tem a perseverança, do contrário, ele, o professor não teria se mantido tanto tempo com seu programa no ar.
Muito bom seu post, continue a nos presentear com tantas boas lembranças.
Sentimos sua falta, e, claro falamos em você em grupos de amigos.
Um beijo.
Adelino
Nao sabia, e muito bom ler o que escreve.
Beijinhos e boa semana.
Lord, o interessante é que a coisa funcionava mesmo, como vim a saber mais tarde. O professor Oswaldo Diniz Magalhães é apenas um dos milhares de heróis quase anônimos - no caso dele - espalhados por este imenso brasilzão.
Muito obrigado, Lord. Grande abraço, e ótima semana pra você.
Yvonne, dádiva pra mim é ter pessoas iguais a você como leitoras. Aguarde que vem mais por aí...
Beijos
Valter, não dava canseira, porque às vezes, principalmente no tempo de frio, a gente fazia a ginástica apenas "de ouvido"... Ligava o rádio e ficava só ouvindo. Estou brincando, Valter, as aulas funcionavam mesmo, embora eu preferisse a nossa jovem professora de educação física do Grupo Escolar: uma lourinha de uns 18 anos de idade... Ninguém faltava às aulas na quadra de basquete. Faltava espaço...
Grande abraço, Valter.
PS - Recebi uma foto da tarde/noite de autógrafos. Eu sabia que ia ser um sucesso. Você merece. Na próxima estarei presente, se Deus quiser.
Aninha, perseverança mesmo. Admirável aquele professor. Até hoje a voz suave do professor Oswaldo Diniz ressoa em minha memória. Não tenho certeza, mas acho que o MIS (Museu da Imagem e do Som) deve ter gravações de alguma aula.
Ana, muito obrigado pelas suas palavras sempre amáveis. Eu também fiquei aqui, mas a todo momento eu me lembrava da tarde/noite de autógrafos do Valter. Na próxima edição eu farei tudo para estar presente.
Um beijo.
Oi, Adelino,
Oswaldo Diniz Magalhães!
Figura, voz e ação, diária em minha casa. Minha mãe fazia, religiosamente, ainda posso ouvi-la batendo as mãos, em concha, sobre a barriguinha, que ela caprichava. Minha mãe idolatrava o Oswaldo Diniz Magalhães e eu gostava de ficar ouvindo a sua aula e os seus bons conselhos.
Lembro-me, também, do prospecto, com as fotos do professor, de cada exercício, presa à parede, servindo de guia para a d. Marita.
Que saudade boa, você levantou para mim, que vivi esses tempos.
abração
Luci Lacey, fico feliz em saber que contribuí para o conhecimento maior de um trabalho tão bonito.
Beijos, e ótima semana também.
Fernando, como gostei do seu depoimento! Complementou de forma brilhante o que eu resumi no post.
O curioso daquele programa é que só de ouvir a voz dele a gente se sentia mais otimista, mais animado. Valeu, Fernando, seja sempre benvindo.
Um abração do
Adelino
Muito interessante saber das histórias, essa estátua está na Praça Saens Peña né? Cresci olhando pra ela.
lindo dia,
beijos
Oi Adelino
Aqui de novo pedindo sua ajuda.
Blogagem coletiva 17.12.2007
Flavia, vivendo em coma, mais uma historia dramatica da omissao de nossa justica.
Saiba mais no site.
http://flaviavivendoemcoma.blogspot.com/
Beijinhos
Adelino, leia o meu último post. Você vai gostar. Beijocas
E o "Zé Fidélis", talvez o primeiro humorista "radiofônico" brasilêro?
Deve ter iniciado sua carreira (disparada) lá pelos finais da década de 20. Ou início da de trinta.
Lembro que meus pais falavam muito dûm de tal de "fidelis".
As piadas dele eram (ou deviam ser) prá lá de "cabeludas" prá época.
Muitos anos depois, por "acauso" do destino, o conheci pessoalmente.
Ele já não era tão novo, mas aguentava uma noitada inté as duas, tres e até as cinco da madruga.
Era um poço sem fundo de piadas que a gente tinha uma vaga impressão que eram novas.
O "véio" matava a pau.
Isso lá nos finais dos anos 60, talvez início da década de 70.
Não entendo porque minguém fala do do Zé Fidelis, ou Gino Cortopassi.
Strix.
Olá, Adelino, espero que consigas resolver logo os problemas de conexão, já que hoje em dia atrapalha bastante a vida,a gente acostuma com a comodidade da comunicação instantânea...
Como viste estou de casa nova, mas já estás linkado no novo blog, as amizades continuam.
Quanto ao post, boa lembrança a tua, pessoas com este caráter e doação aos outros merecem respeito e consideração.
Beijos
http://espiritizar.zip.net/
Marcia, acho que estou de volta. Tivemos problema de conexão. Então, a homenagem ao Oswaldo Diniz, a rigor, é uma estátua de um ginasta, tendo logo abaixo a imagem do professor.
Beijos, e desculpas pela demora na atenção ao seu comentário.
Beijos
Luci, infelizmente ontem não pude escrever nada, por problemas no PC, internet etc. De qualquer forma conte sempre conosco.
Beijos
Yvonne, não somente li como comentei, e ainda recomendei a leitura do post a pessoas conhecidas, que adoraram. Acho que ganhará novos(as) leitores(as)...
Bjks
Strix, como sempre fico aqui apreciando seus valiosos depoimentos. Eu também já ouvi falar de Zé Fidelis, do outro, não. Pode ter sido um artista mais regional, quem sabe?
Um grande abraço
Jeanne, parece que agora vai tudo certo com a minha conexão. Espero que permaneça assim.
Penso igual a você: acho que esses quase heróis anônimos deveriam ser homenageados sempre.
Confesso que fiquei apreensivo ontem quando da entrega dos prêmios aos melhores atletas e dirigentes brasileiros acontecida no Teatro Municiapl, no Rio. A figura legendária e quase centenária de João Havelange quase ia sendo esquecida. Por pouco.
Em compensação Maria Esther Bueno foi muito bemlembrada, assim como Maria Lenck.
Beijos
Adelino, Gino Cortopassi era o nome de batismo do Zé Fidelis.
Strix.
Adelino,
esse rádio não muda de programa???
Não aguento mais esses exercícios...
Que bom que esta com o PC em ordem! Agradeço e comemoro seu comentário.
Forte abraço
Grande Strix, nem imaginava que Gino Cortopassi fosse o Zé Fidelis... Valeu.
Grande abraço
Eduardo, eu também já estava cansado de tanta "ginástica"...
Mas tem post novo. O tema é quase o mesmo, porém menos cansativo...
Mas atenção! O rádio tá lá...
Abração.
poxa gostei, sempre q passo na tijuca eu vejo o monumento e fico mto feliz, e como sou prof de educação física né....
Adoreiii
Crescí vendo minha mãe fazendo a "Ginástica pelo Rádio" com grande empenho e, muitas vêzes, também a acompanhava; eu preferia os exercícios com bastão. Tínhamos os 4 mapas de exercícios para o mês inteiro e, logo ao comêço do programa, eu anotava o pensamento do dia que o professor Magalhães dava tôdas as manhãs. Já não me lembro do nome do pianista, que, às vêzes, chegava atrasado e anunciava sua chegada com dois acordes ao piano. Penso que a ginástica foi positiva para minha mãe, pois completará 100 anos daquí a um mês.....Gostei muito de seu artigo sôbre o professor Magalhães.
Para completar meu comentário de ontem:
Penso que afinal já me lembro do nome do pianista que colaborava nas aulas do professor Oswaldo Diniz Magalhães: não era Jorge Paiva ?
Saudações de Tambatajá.
Adelino,
parabéns pela matéria magnífica!
tenho muito orgulho dele.
Cristiano Magalhães
sobrinho neto de
Oswaldo D. Magalhães
Nanna Williams, não estranhe. Quase dois anos depois, revisitando meu próprio blog, vi muitos comentários que involuntariamente deixei sem resposta, mas sempre é tempo. A propósito, a revista do Globo (bairros) publicou na semana que passou uma interessante matéria sobre o Oswaldo Diniz Magalhães.
Abraços
Daienne, repetindo o que eu disse a Nanna Williams, embora com atraso agradeço as suas referências elogiosas às minhas modestas postagens. E obrigado pela “dica” do Curso. Abraços
Sonia, achávamos estranho, mas acho que funcionava sim. Hoje, por exemplo, temos CD para meditação, relaxamento etc. E funcionam. Quanto ao pianista, não me lembro. Parabéns a sua mãe que completou o primeiro centenário. Abraços.
Sonia, não posso confirmar se era Jorge Paiva. Mas me parece que a sua memória trabalhou com muita convicção...
Abraços
Cristiano, que legal. Você tem mesmo de se orgulhar de seu tio-avô.
Como eu disse, quando criança eu apenas ouvia – enquanto me aprontava para o Colégio - o seu tio ministrando as aulas. Quase 50 anos depois vejo e entendo a enorme importância que tinha o trabalho pioneiro dele. Fiz o post com muito sinceridade. Fui à Praça Saenz Peña exclusivamente com a finalidade de obter a foto do monumento eu sabia lá estava.
Abraços
Morava no bairro da Piedade, quando acordava lá estava minha mãe (hoje 87 anos) a fazer ginástica pelo rádio... com mapa - comprado no jornaleiro, bastão ou corda para pular. Eu e meus filhos herdamos dela esse gosto pela atividade física, com o advento das academias, ela sempre frequentava alguma!Meu filho é jogador de HOQUEI, minha filha adora volei e eu pratico natação duas vezes por semana.
Maria Isabel - carioca, por hora, morando em Campo Grande capital de MS.
Eu tenho comigo os "mapas de exercícios" referentes ao programa... quem quiser, faço um precinho camarada
Dos 13 aos 16 anos, diariamente ligava o radio de manhã cedo e seguia a rotina de exercícios do grande mestre Oswaldo Diniz Magalhães.
Era um momento de alegria,otimismo e bem estar.
Hoje, pratico musculação, mas a minha base foram os exercícios do mapa e sua orientação pela rádio.
Minha mãe acompanhou durante anos as aulas do Prof. Diniz. Havia umas apostilas com desenhos para facilitar o acompanhamento. Será que hoje se pode encontrar estes manuais em algum lugar? Será que há alguém que sabe?
Saudações cordiais
Otto
Bel Santos, acho que tudo na vida é vontade, perseverança. Quando se quer aprender nada há que impeça. Lembro-me das aulas de inglês do Professor Climério de Oliveira Souza, na Rádio Ministério da Educação e Cultura que ouvíamos de manhãzinha nos anos 40. Forneciam livros gratuitamente e ainda aplicavam e corrigiam as provas que nos eram remetidas pelo Correio (DCT)...
Grande abraço
Am I nuts already, guarde essa preciosidade sob sete chaves...
Abraço
Paulo Reis, só de ouvir a voz suave e cadenciada tendo ao fundo uns acordes de piano, a gente se sentia animado, otimista. O dia começava melhor. Hoje, acorda-se com locutores esguelando comerciais, dando dicas de trânsito, previsão do tempo, horóscopos, simpatias, mulher comentando aos berros histéricos os capítulos das novelas do dia anterior e dos posteriores também...
Enfim, uma parafernália.
Abraços
Otto Marotte, tem gente que comentou mais acima que tem alguns mapas das aulas do Professor Diniz. Quem sabe, um gentileza?
Abraço
Boa noite. O pianista era mesmo Jorge Paiva, meu tio avô. Muito boa sua materia. Adorei.
Prezado Leitor. Fiquei feliz em saber que adorou a matéria. Infelizmente vivemos num país em que não se preza e muitas vezes nem se respeitam suas tradições e personalidades. Passei outro dia pela Praça Saenz Peña e procurei pela monumento ao Professor Diniz. Não estava lá. Um casal de meia idade me informou que parece que tinha sido removido ou mesmo furtado. Uma pena. Um grande abraço.
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